Farpas de Gelo



~ quinta-feira, outubro 17, 2002
 
Capítulo XX


Arthur e Alea seguiam devagar, cada um segurando Gilbran por um braço. Ele não conseguia ajudar muito. Desceram cautelosamente as escadas, sempre espiando pelas esquinas. O caminho estava limpo. Os barulhos ao longe indicavam que uma verdadeira guerra estava ocorrendo, e provavelmente todos os oficiais haviam rumado pra lá. Saindo pela porta da frente do prédio, Alea indicou o caminho da esquerda.

- Por aqui. São só sete quarteirões até a gente sair da área deles.

A perspectiva de carregar aquele peso por sete quarteirões, arriscando-se a levar um tiro a cada esquina, fez Arthur esmaecer. Sentiu vontade de parar e largar Gilbran no chão ali mesmo. Pro inferno com aquilo tudo. Por um momento, desejou muito que sua memória voltasse e ele se descobrisse um ex-oficial da polícia. Tudo seria mais fácil. Então, Alea esticou o pescoço para olhar da beira de um prédio. E quando voltou-se novamente, seus olhos estavam brilhado:

- Nem acredito! Nos deixaram de presente!

Arthur, confuso, olhou também. E viu, numa pequena praça logo adiante, um carro preto e prateado, com o logotipo da polícia, vazio.

- Vem logo! - disse Alea, apertando o passo o máximo possível, indo em direção ao carro. Arthur ainda olhou para todos os lados, certificando-se que realmente não havia ninguém ali perto, mesmo sabendo que tomava a precaução tarde demais. Mas realmente não havia nenhum policial à vista. Aproximando-se do veículo, Alea largou Gilbran todo em cima de Arthur e disse:

- Atira ele aí no banco de trás enquanto eu tento fazer ligação direta.

Arthur, com um resmungo, desajeitadamente abriu a porta de trás do carro, e arrastou Gilbran para a entrada. Atirou ele de qualquer jeito em cima do banco, empurrando suas pernas para que entrasse totalmetne. Gilbran se mexeu e tentou ajudar, mas sem muito sucesso. Arthur fez um esforço maior e conseguiu empurrar o corpo de Gilbran todo para dentro do carro. Terminando, suspirou, relaxando o corpo, e ergueu-se para fechar a porta, quando ouviu um clique logo ao lado de seu ouvido esquerdo. Antes mesmo de virar o rosto, notou com o canto do olho.

Um policial, parado a seu lado. Com a arma a dois centímetros de sua cabeça.

O que ocorreu a seguir foi como se ocupasse menos de um milissegundo no tempo. O corpo de Arthur foi percorrido por uma onda de calor e outra de frio, subsequentes. Sentiu todos os seus músculos se retesarem, e sua visão escureceu. Sentiu uma explosão de ódio em seu interior, que foi se alastrando pelo corpo todo. Até chegar a seus braços. E, movido por esse ódio, Arthur jogou o braço direito de encontro à arma, todo o resto do mundo se movendo em câmera lenta... exceto por ele. Seu braço acertou a mão do policial, e a força demasiada fez com que, não só ele apertasse o gatilho enquanto a arma subia com o impacto - fazendo uma rajada de três balas se perderem no espaço, a primeira passando preocupantemente perto da cabeça de Arthur, ma sem atingí-la - mas também com que largasse a arma, que voou livre por uma trajetória em arco até cair no chão, vários metros adiante. Antes que o policial pudesse reagir, as duas mãos de Arthur já haviam voado em seu pescoço, pressionando-o com toda a força possível. O policial soltou um gemido esganado, e tentou retirar as mãos de Arthur de seu pescoço com as suas, mas não conseguiu movê-las meio centímetro que fosse. De repente, Arthur fez com as mãos um brusco movimento para o lado, e o pescoço do policial estalou alto. Para finalizar, Arthur ainda levantou o pé direito e chutou o estômago do policial, largando seu pescoço. O guarda voou quase dois metros antes de cair no chão, imóvel.

Arthur ficou parado, olhando para o policial, respirando pesado. Lentamente sua respiração foi se acalmando, e ele olhou para suas mãos, depois novamente para o corpo a sua frente... ele tinha feito aquilo sozinho?! Virou-se, num misto de espanto e excitação, para mostrar para Alea. Então novamente um soco invisível atingiu seu estômago. Alea estava parada, de costas para ele, desarmada. Logo a sua frente, a menos de três metros de distância, um policial apontava a arma para seu rosto. O olhar do policial era um misto de confusão, ódio e medo. Devia ter visto o que Arthur fez. O policial olhou para Arthur, depois para Alea novamente. Arthur gelou. Sabia que não conseguiria alcançar a arma do policial que derrubara sem que o outro atirasse.

Arthur não sabia o que fazer.

E foi então que a voz de Alea soou. E apesar de não conseguir ver seu rosto, Arthur pode imaginar precisamente o olhar dela:

- Cê sabe que se você virar a arma pro lado um segundo, cê morreu, não sabe, amor? Só que meu neném ali atrás vai pegar a arma do seu ex-colega, e vai meter uma bala na tua cabeça. E ele atira muito bem, o meu neném. - Arthur começou a ir na direção da arma, mas sem tirar os olhos da cena. Sua expressão era de ódio e tensão. O policial olhou em sua direção, mas não ousou apontar a arma. Olhou novamente para Alea, e para ele, e novamente para Alea. Estava ficando intimidado. Alea continuou:

- Cê vai se ferrar de qualquer jeito. Mas você pode, quem sabe, me acertar um tiro antes que ele chegue até a arma. Mas você só tem uma chance. E mesmo de tão perto, você pode errar. Ou você pode sair correndo e SE meu neném errar você, você vive. Difícil, né amor? Mas é a vida. Que que vai ser?

O policial ficava cada vez mais tenso, e Arthur chegava cada vez mais perto da arma. O guarda ensaiou intenção de apontar a arma para Arthur, mas imediatamente Alea respondeu com um início de movimento em sua direção, e ele voltou a apontar a arma pra ela. Arthur estava a poucos centímetros da arma agora. O policial ainda olhou para ele, e para Alea novamente. Então Arthur se abaixou e apanhou a arma.

E o policial atirou em Alea.

Arthur gritou, mas não ouviu a própria voz. Não ouviu nada. O estrondo do tiro pareceu durar para sempre. Ele puxou a arma do chão enquanto o policial apontava a sua para ele. Ambos completaram o movimento ao mesmo tempo. Mas apenas um tiro se ouviu.


Fim do Capítulo XX


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